Como escritor escrevo cartas sem destinatários

Há blogs que são vitrines, e há os que são abrigos. O Velho Marujo pertence à segunda espécie.
Navega na contramão da pressa, resistindo à lógica das redes efêmeras. Desde 2008, ele mantém acesa uma fogueira à beira-mar, onde o viajante cansado pode se aquecer com histórias, crônicas e versos escritos sem destino certo — mas sempre com direção.

Em tempos em que tudo se apaga, o blog é permanência. É arquivo vivo de uma voz que amadurece, erra, se refaz. Ler suas páginas é acompanhar o envelhecer de um homem e o florescer de um olhar.
Há nas “Cartas” uma coerência íntima: o cotidiano, o amor, a cidade, a solidão e a fé aparecem costurados como partes de um mesmo pano — o da existência.

Com mais de 250 mil leituras, As Cartas do Velho Marujo é mais que um diário: é uma embarcação coletiva.
Cada leitor que chega é um tripulante eventual; cada texto, uma ilha descoberta; cada silêncio entre as linhas, uma prece discreta ao infinito.
O blog permanece como uma memória de resistência poética num mundo de vozes descartáveis — um farol aceso por alguém que escreve porque precisa continuar navegando.

Diário de Bordo

Boas-vindas a um mundo de possibilidades ilimitadas, onde a jornada é tão emocionante quanto o destino, e onde cada momento é uma oportunidade para deixar a sua marca.

  • Dance!

    Viva a vida com dança; dance aos pés da vida.
    Em meio às guerras e lástimas de um mundo sombrio, ilumina-o com tua dança; ilumina-te a ti mesmo.

    Dançar, assim como cantar, são verdadeiros luminares da alma.
    As pessoas que ainda são capazes de dançar neste planeta em constante decadência são capazes de provocar o inestimável: alegrar corações, encantar olhares antes perdidos.

    Encontra-te a ti mesmo.

    A cada movimento, a cada esticar de braços, a cada salto…
    Leva a vida na leveza de teus passos e passeia por ela.
    Tudo pode ser mais vivo e belo se as pessoas souberem dançar e cantar em meio à guerra.

    Quão linda é a vida daqueles que dançam, cantam e vivem o segundo, o minuto, a hora — pois os dias já não cabem mais neste contexto.
    O futuro é um mero esperar; é o bocejar de uma criança: longo, longo… Parece eterno para quem, de longe, admira.

    Dance, espreguiça-te, estica-te.

    Teus ossos não durarão mais um milênio; teu corpo se findará antes da consumação dos séculos.
    Tua vida ficará mais lenta, teu andar mais pesado, e os dentes, cada vez mais amarelos.
    Por isso, dance… Dance em tua mocidade, na tua adulta meninice.

    Por mais rugas que o tempo tenha te premiado, a criança que habita em ti jamais envelhecerá; a alma é a eterna solidez da juventude.
    A vida vale este momento — e este momento vale uma vida.

    Sei que dirás estar velho — ou velha — demais para se divertir tanto assim. Que nada!
    A maior bobagem foi termos inventado a inveja: a frustração alheia que nos empurra para os braços da vigilância e para olhares maliciosos que nos julgam pelos feitos impensados.

    Quer saber? Deixa: arrasta os móveis da sala e dança.
    Dance com ou sem companhia, como se esta fosse tua última valsa, teu último samba, o último soul… Liberta-te!
    Convida a vizinhança, faz uma festa, abraça teu amor — pois, do outro lado, para onde todos iremos, talvez não haja mais nem música, nem dança.
    Apenas o silêncio.

    Dance!

  • Saí da Cova Ògún!

    Levante-se, Ògún!
    Põem-se de pé.
     
    És ou não és
    Metal de fundição?
    Ferro liquefeito
    Na fornalha da insurreição.
     
    Levante-se, Ògún!
    Teu povo te chama.
     
    Teus erros te enferrujam
    Tornou-se lâmina cega
    Outrora faca de dois gumes
    Agora vergonha que não se nega.
     
    Levante-se, homem!
    Ande, erga-te da terra.
     
    Tu, Leão que não
    Quis reinar na selva
    O príncipe que preferiu
    Galopar a sós pela relva.
     
    Levante-se!
    Vamos, Olódùmarè o vê.
     
    Enfrestastes reinos e reis
    Confrontastes impérios
    Mas, ao confrontar a si mesmo
    Escolheste a morte ao vitupério.
     
    Levante-se, Ògún!
     
    És espada desembainhada
    És sangue nas artérias
    Vento que corta a face
    És palavra deletéria.
     
    Em prontidão, levanta-se!
     
    Teu nome é tua força
    Por onde quer que andares
    Todos os deuses te temem
    De Ares do Olimpo à Poseidon dos mares.
     
    Pela derradeira vez, levanta-se!
     
    Errar é tão humano
    Quanto divino a um Òrìșà
    És tão impulsivo quanto és nobre
    Tu és o verso do poema de Ifá.
     
    Ògún!
     
    Vai-te em busca de tua honra
    Tome posse do que é teu
    Não nascestes para a clausura
    Não enclausure os sonhos teus.
     
    Levante-se, Ògún!
    Levante-se!

    AUTORIA: Velho Marujo
  • Buraco Negro

    Mil Saturnos cabiam ali...
    Já não havia como separar
    Se era o vazio aqui dentro
    Ou o silêncio lá fora.
     
    O que era imensidão
    Do que era medo
    Luz e escuridão
    Tarde ou cedo.
     
    Tudo se tornou inércia
    Após o Big Bang!
     
    Havia estrelas
    Espelhadas no quintal
    Um Júpiter por metro quadrado
    Uma Antares por cada cômodo.
     
    O Sol não ousava
    Refletir-se sobre mim
    Tornei-me Lua minguante,
    No coração, eclipse.
     
    Era para ser constelação
    Não buraco negro!

    Não me lembro dos dias
    Não me lembro das noites
    Só ausência e terra fria,
    Lembranças são açoites.
     
    Sentia-me anos-luz de mim...
    Mesmo o som de Minh ‘alma
    Naquele espaço não
    Se fazia ouvir.
     
    Era para ser infinito
    Não paredes e solidão!
     
    Por um momento
    Imaginei-me supernova
    Todavia, me descobri grão de areia,
    E vi limites na Via-Láctea.

    Existia tetos sobre
    Não mais enxergava o céu
    Ou quiçá, brilho,
    Tetos nos roubam sonhos!
     
    Era para ser universo em expansão
    Mas, se revelou começo, meio e fim.
     
    E foi tão confuso assim...

    AUTORIA: Velho Marujo

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sobre o autor

Velho Marujo

Ninguém sabe ao certo de onde ele veio — talvez de algum porto antigo, talvez das marés interiores de quem já viveu demais e aprendeu a se calar entre uma onda e outra. O Velho Marujo escreve como quem lança garrafas ao mar: cada texto é uma mensagem à deriva, um murmúrio para ninguém e para todos.

Ele é desses que preferem o timbre rouco da vida às vozes polidas dos manuais. Seus textos têm cheiro de maresia e solidão, mas também de esperança. Escreve para manter-se à tona — não por vaidade, mas por necessidade. A escrita, em suas mãos, é remo e bússola.

O Marujo parece conversar com fantasmas — os da cidade, os da memória, os da própria língua. É um homem que envelheceu de tanto observar, um poeta que carrega o sal da existência nos bolsos. Há quem diga que cada palavra sua é uma maré que volta; há quem diga que ele não escreve, apenas escuta o mar e o traduz.

No fim, o Velho Marujo é menos um nome e mais uma travessia. Um estado de espírito. Um ponto de encontro entre quem escreve e quem se permite sentir.
Ele é o navegante das palavras que nunca chegam — e é justamente por isso que continuam a mover o mundo.

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